Telemedicina

DATA: terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
AUTOR: Dr. Rodrigo Tadeu de Puy e Souza
FONTE: Saúde Ocupacional

Tóquio, 2030

Paciente entra no primeiro hospital japonês exclusivo em Telemedicina. Cambaleante, com postura antálgica, pega com dificuldade a senha para o atendimento clínico e se dirige à sala de espera. Poucos minutos depois, o monitor do computador o direciona randomicamente para um consultório. Ao sentar na cadeira do consultório, o médico o recebe com cortesia e atenção, com todos os resultados obtidos do paciente.

Enquanto deambulava pelo corredor, o termômetro infra-vermelho aferiu a temperatura do paciente (axilar, retal, da cavidade oral e de todos os outros sítios corporais); houve um scaneamento completo de todos os segmentos corporais que denotava um plastrão em andar superior do abdome, com áreas necróticas e concreções cálcicas na árvore biliar; sensores de presença detectaram no paciente escleras ictéricas, taquicárdico, com manchas equimóticas periumbilicais.

O médico aferiu em tempo real a propedêutica laboratorial sérica com um wearable: amilase e transaminases elevadas. Após um curto período de análise e validação dos testes com o exame físico do doente, o médico fez conexão direta com o cirurgião do trato digestivo que estava em outro setor do hospital, repassou o caso e, em seguida, o paciente é encaminhado para o bloco cirúrgico para debridamento do material necrótico e hidratação vigorosa. Por meio de cirurgia robótica, o cirurgião acompanha o tempo cirúrgico, monitora os dados vitais do paciente, avalia a extração de material para exame anátomo patológico digital, orienta a ampliação de margens de ressecção e a sutura dos planos de clivagem. Em uma hora, o paciente já está no quarto se recuperando de uma cirurgia em virtude de uma pancreatite necrohemorrágica de etiologia biliar.

São Paulo, 2020

Situação 1

Paulo está de férias aproveitando o carnaval neste país continental. Quarta-feira de cinzas é o “dia fatal”. O retorno ao trabalho na quinta-feira é inevitável. Após bebedeiras, orgias gastronômicas (e por que não sexuais) avalia que só tem um único recurso para solver sua situação. Rápida e objetiva: a Telemedicina. No quarto do hotel, por meio do “app” do seu plano de saúde, o sujeito solicita a consulta “on line”. Em segundos, o atendimento se inicia. Do outro lado, está um médico novo, recém-formado, sorridente e muito atencioso. Escuta com muita atenção as queixas do paciente.

“- Sabe o que é dotô, estou com diarréia e uma baita dor de cabeça…”

O médico responde: não se preocupe: “ Está tudo bem. “ . Embora a internet esteja ainda com algumas falhas e uma webcam razoável, o médico solicita que o paciente faça algumas manobras à distância e, acreditando nas palavras do paciente, prescreve analgésicos, solução de hidratação oral e….o atestado médico de 02 dias.

Pronto, consulta encerrada. Paulo avalia o atendimento: “Nota 10! Dr Renato foi muito atencioso e resolveu meus problemas.”

Paulo envia o atestado médico digital “on line” para a empresa. Resolvido o problema. Paulo emenda o carnaval com o fim de semana, licença-médica remunerada por 02 dias. Tudo sem sequer ter qualquer solução de continuidade de sua rotina, enfrentar pronto atendimento, exame direto do médico. E o risco de internar? Ficar de observação por horas? Nada disto….Segunda feira ele estará na empresa firme e forte para trabalhar. Problema é da empresa de Paulo que assume este passivo trabalhista.

Situação 2

A empresa “Telehome care” está em franca expansão. Reduziu custos ao dispensar os médicos de família que compunham as equipes de saúde que, por meio de ambulâncias, visitavam pacientes acamados e terminais para cuidados paliativos.

Neste novo “desenho” da empresa, é necessário apenas o motorista e uma auxiliar de enfermagem contratados para visitar os pacientes na cidade. E um único médico à distância para avaliação do paciente, fixo e centralizado remotamente, via telemedicina.

A auxiliar de enfermagem repassa as informações colhidas do paciente ao médico. Por meio de alguns dispositivos, a auxiliar colhe alguns dados vitais e os transmite em tempo real para o médico, além de responder alguns questionamentos do médico.

Consulta encerrada, prescrições e orientações feitas aos familiares é hora de partir para nova visita. E, quanto mais rápido possível melhor. O médico recebe por produtividade de atendimentos, via pessoa jurídica (PJ).

Conclusão

A Telemedicina pode ser uma excelente ferramenta para o médico, paciente e para a instituição em saúde. Tornam eficientes inúmeros processos, em termos de tempo e custos, além de poder elevar a segurança nos procedimentos médicos.

A forma brasileira de Telemedicina proposta e que se avizinha pode ser traduzida pelo império do poder econômico e não pelos fundamentos da tecnologia em saúde por si só.

“Não se pode colocar um anel de diamante em focinho de porco.”

Na próxima edição da Coluna De Puy irei trazer sugestões à comunidade médica e entidades de classe para melhoria da Resolução que pretende regular a Telemedicina em nosso país.

Um grande abraço a todos.

Autor: Rodrigo Tadeu de Puy e Souza – Médico. Advogado. Pós-Graduado em Medicina do Trabalho. Mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: rodrigodepuy@yahoo.com. Site: www.pimentaportoecoelho.com.br
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